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Mão de ferro 

POR REGINALDO PRANDI 

As mãe-de-santo e os pai-de-santo do candomblé são governantes vitalícios e absolutos de seus terreiros. Dirigem com mão de ferro a vida espiritual de seus filhos e filhas-de-santo e administram a casa-de-santo como patrimônio pessoal. A mãe-de-santo é rainha em seu terreiro; não existe autoridade acima dela. Sua morte abre todo um período de conflitos, intrigas, alianças, rearranjos e cisões. 

Segundo a concepção do candomblé, quem governa um axé, um terreiro, é orixá do fundador daquela casa-de-santo. Na sucessão, acredita-se que é esse orixá quem escolhe a nova mãe ou novo pai e que sua vontade se manifesta por meio do jogo de búzios, numa cerimônia presidida por um sacerdote do oráculo, o oluô, que olha os búzios e interpreta a vontade do orixá, e que é especialmente convidado para tão delicada mediação. O povo-de-santo de outros terreiros joga então papel decisivo, pois são os demais terreiros que legitimam a sucessão.
A morte da mãe ou pai-de-santo abre sempre uma guerra sucessória. Na sucessão, é importante o critério da senioridade das candidatas, seu grau iniciático, seu nível de conhecimento sacerdotal. Mas isso não é suficiente. O resultado da escolha depende da tradição sucessória da casa, do jogo político das facções, pessoas e grupos que pleiteiam o trono da ialorixá, da situação jurídica do terreiro, da sucessão civil sobre o espólio material, isto é, a propriedade imobiliária do terreiro, da posição, da posição assumida por possíveis herdeiros legais, que podem fazer parte ou não do grupo de culto etc. Em geral, as casas não sobrevivem ao seu fundador, exceto em meia dúzia de casos em que vários fatores confluíram no sentido de manter uma tradição publicamente atribuída e reconhecida pelo mundo fora do terreiro, como a mídia e a academia. Mas sempre haverá discordâncias, atritos, rupturas e provável formação de novas casas pelos dissidentes que se afastam. Tem sido assim desde que o candomblé é candomblé.
Dos velhos terreiros da Bahia, poucos sobreviveram, mas mesmo assim passando por difíceis períodos de transição. Os terreiros do Gantois e do Axé Opô Afonjá nasceram nessas circunstâncias, originários da Casa Branca do Engenho Velho, que é a grande matriz cultural do candomblé, fundado em meados do século passado e considerado o primeiro.
Em alguns terreiros, a sucessão se faz preferenciamente em linha familiar de sangue, geralmente de mulher para mulher. Em outros, a nova mãe ou o novo pai-de-santo é escolhido entre membros da alta hierarquia da casa, independentemente de laços de sangue.
O candomblé do Gantois sempre foi dirigido por mulheres descendentes da fundadora, Maria Júlia da Conceição Nazaré. Está hoje no seu quarto governo, com mãe Cleusa, filha carnal de mãe Menininha, Escolástica Maria de Nazaré, a mais famosa e venerada ialorixá de todos os tempos. Menininha foi mãe-de-santo por mais de meio século, tendo sucedido mãe Pulquéria, sua tia-avó e filha da fundadora. Menininha herdou da tia tanto a propriedade civil do templo como o cargo de mãe, como ela gostava de deixar bem claro. Maria Júlia, a fundadora, fazia parte da Casa Branca do Engenho Velho, que abandonou quando perdeu a disputa na sucessão.
O Axé Opô Afonjá foi fundado por mãe Aninha, que deixou a Casa Branca do Engenho Velho quando seu trono foi conquistado por outra pretendente. Sua terceira mãe foi Senhora de Oxum e hoje é governado por sua quinta ialorixá, mãe Stella de Oxóssi. Três importantes mães na história do candomblé. Mas a segunda ialorixá, mãe Bada, e a quarta, mãe Ondina, marcaram apenas períodos de interregno, de grandes disputas internas. Com a posse de mãe Stella, quando o terreiro já se adaptara à ausência de Senhora, houve novas divisões, tendo Mestre Didi, filho carnal de mãe Senhora, deixado o axé de sua mãe. No Axé Opô Afonjá a sucessão nunca foi por linha de sangue.

No Recife, dos terreiros centenários sobreviveu apenas o Sítio de pai Adão, porém com grandes períodos de conflitos e decadência, conflitos que se arrastam até hoje, quando é chefiado por Manuel Papai, neto carnal de pai Adão, que sucedeu o pai e um dos tios, que passaram a vida em disputa entre si e com outros irmãos.

Em São Paulo, quando morreu pai Caio de Xangô, o fundador do Aché Ilê Obá, subiu ao trono sua sobrinha mãe Silvia de Oxalá. Para evitar a partilha da rica propriedade do terreiro entre os herdeiros civis de Caio Aranha e o consequente fim do Aché Ilê Obá, mãe Silvia conseguiu promover o tombamento de seu terreiro pelo Condephaat, em 1990, embora o templo não pudesse ostentar uma história de tradições nos moldes das casas da Bahia. O terreiro foi fundado apenas em 1974 e a própria nova mãe-de-santo tinha poucos anos de iniciada quando assumiu o cargo de ialorixá. O tombamento por um órgão oficial de preservação de tradições criou um inusitado mecanismo de ligitimação no candomblé paulista.

REGINALDO PRANDI, 50, é professor-titular de sociologia da USP e autor, entre outros livros, de "Os Candomblés de São Paulo" (Hucitec, 1991) e "Herdeiras do Axé" (Hucitec, 1996).