São nove horas da noite. Os tocadores de atabaque, chamados alabês,
estão a postos em seus lugares. O público - cerca de 40
pessoas - aguarda em silêncio, acomodado em bancos rústicos
de madeira. Os homens, na fileira à direita da porta. As mulheres,
do lado esquerdo. Separados, para evitar um eventual namoro. Afinal, ali
não é lugar para isso. Estamos num templo do candomblé,
a Casa Branca, em Salvador, Bahia, o pioneiro do Brasil, fundado em 1830.
A festa (que pode ser comparada a uma missa católica) vai homenagear
Xangô, o deus do fogo e do trovão.
O barracão foi decorado durante toda a tarde. O teto de telha-vã
foi escondido por bandeirolas brancas e vermelhas - as cores de Xangô.
As paredes estão enfeitadas de flores e folhas de palmeira de dendê
desfiadas. Vai começar o toque, como é chamada a festa de
candomblé no Brasil. Ela é aberta a todos os orixás
(deuses, que também podem ser chamados de santos) que quiserem
homenagear Xangô.
O que o público vai assistir é parte de um ritual que começou
horas antes. Na madrugada, os filhos-de-santo fizeram o sacrifício
para o orixá homenageado. Nas primeiras horas da manhã,
as filhas-de-santo prepararam a comida. Durante a tarde, foi feita a oferenda
aos deuses, e Exu, o mensageiro entre os homens e os orixás, foi
despachado.
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O teto do barracão da Casa Branca, o terreiro mais tradicional
do Brasil, é coberto de bandeirolas coloridas, em homenagem a Xangô.
Antes, o
ritual secreto
de preparo
A preparação da festa é fechada ao público.
Somente os membros da comunidade de santo, ou seja, do terreiro;
podem participar dela. Essa parte do ritual começa na madrugada
anterior e dura o dia inteiro.
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O toque
É o mesmo, que festa e se refere à
batida dos atabaques, que convoca os orixás. A estrutura
da cerimônia, chamada "ordem do xirê" (brincadeira,
na lingua iorubá), divide a festa em três partes.
A primeira acontece à tarde, com o sacrifíco, a
oferenda e o padê de Exu. A segunda é a festa em
si, à noite, na presença do público, quando
os filhos-de-santo "incorporam" os orixás. E
a terceira fase, o encerramento, com a roda de Oxalá, o
deus criador do homem.
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