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(reportagem da Revista da Folha, 23 de fevereiro, 1997)


....."Sua majestade" mora na Bahia, em uma casa branca no meio de uma comunidade pobre, e é chamada de "mãe". Ela é Cleusa Millet, uma senhora de 65 anos 100 kg, óculos de lentes grossas, fala e andar arrastados.

.....Cleusa é filha da lendária Maria Escolástica de Nazaré, a mãe Menininha...
Aos 28 anos, mãe Menininha assumiu o terreiro e ficou no poder até morrer, aos 92 anos. Foi a mais venerada ialorixá de todos os tempos. As comemorações de seu centenário em 94 pararam a Bahia por quatro dias. Hoje, segura no reinado do Gantois, Cleusa enfrenta problemas sobre quem vai sucedê-la. Os obstáculos no caso... a rebeldia da "princesa", a filha Mônica Millet, 36, que não quer assumir o fardo.

Da medicina ao terreiro

A própria mãe Cleusa admite que não queria subir ao trono. "Apesar de ter nascido e vivido até a adolecência dentro de uma casa de candomblé, de ser filha de mãe-de-santo, nunca pensei em ocupar cargo algum", disse em entrevista à Revista da Folha, no Gantois.
Ela afirma que não queria furgir à responsabilidade, mas descreve o seu sofrimento: "Ao assumir o lugar de mamãe, a sensação que tive era de que aquele sapato cômodo, que usava todos os dias, tinha desaparecido. E até me acostumar a andar descalça ou conseguir um sapato que ficasse bem nos pés sofri muito".
No Gantois, normalmente quem assume o lugar da mãe é a filha mais velha, mas Cleusa tinha construído toda uma vida longe do candomblé. Casou-se aos 21 anos com um oficial da Marinha de Guerra e viajou pelo mundo todo. Na volta, decidiu morar no Rio e desengavetou o diploma de medicina que tinha obtido na Universidade Federal da Bahia. Arrumou, pela primeira vez, um emprego de obstetra. Teve três filhos e "não pensava em mudar de vida".
Quando o marido se aposentou, o casal voltou à Bahia e começou a reaproximação com o candomblé. "Até um tempo atrás, as pessoas que tinham uma certa cultura adoravam o candomblé, mas não queriam assumir a responsabilidade de uma casa, de ser pai ou mãe-de-santo. Eu também pansava assim. Achava que mamãe viveria eternamente e que eu continuaria apenas colaborando com ela". diz Cleusa.
A transição se deu de maneira sutil, sem que Cleusa percebesse. "Primeiro parei de trabalhar porque tive problemas para me desligar dos empregos do Rio. Aos poucos, comecei a fazer partos de graça para o pessoal do bairro e nunca mais voltei aos hospitais", lembra.
O trabalho comunitário levou Cleusa ao terreiro. "Sempre acompanhava mamãe e logo fiquei envolvida. Nunca pensei em assumir seu lugar porque ninguém se prepara para perder a mãe".
Cleusa conta que mãe Menininha nunca falou abertamente sobre a sucessão. "Hoje me chamam a atenção do quanto mamãe citou meu nome em entrevistas. Na época achava normal. Não sentia que ela preparava o terreno para que eu assumisse a casa". Quando pessoas mais antigas no Gantois tocavam no assunto, Cleusa desconversava. "Uma vez fui levar uma encomenda a outra mãe-de-santo, famosa na Bahia. Quando cheguei, ela disse que tinha uma coisa guardada, que seria só para mim. Fugi assustada porque não queria ouvir sinais", conta.

 

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